17 setembro 2006

As ironias do amor

Liguei a tv e me deparei com um documentário sobre o comportamento afetivo e sexual das mulheres. Acho que eram americanas, não lembro. A câmera circulava por uma festa, e de vez em quando colhia o depoimento das convidadas. Uma delas lindíssima, estufou o peitão, segurou firme o microfone e deu seu parecer sobre o homem ideal. Disse ela que se um cara bonito lhe pedir dez dólares emprestados ela nunca mais olha na cara dele, mas se um velho decrépito convidá-la para dar uma volta no seu jatinho, na mesma hora ele vira um príncipe. E sorriu sedutoramente para a câmera, como quem pergunta: "Não é assim com todas?"

É uma pena que as histórias de amor estejam decaindo. Uma boa parcela de mulheres já não está a fim de esperar o coração dar as ordens. Antes disso, elas estabelecem suas prioridades e se engatam em quem melhor lhes convier, transformando em príncipe aquele que for capaz de fazer o milagre da multiplicação da conta bancária ou de alça-las para o topo da pirâmide social. Sentimento, hoje em dia, só atrapalha.

Teoricamente, isso nos horroriza, certo? Então deveríamos soltar foguetes ao ouvir a notícia de que um príncipe de verdade, em vez de escolher - outra vez - uma noiva jovem, linda e cheia de fragilidades, resolveu se casar com uma mulher madura de 57 anos, totalmente fora dos padrões de beleza, mas com o mérito de ter sido desde sempre o grande amor da sua vida. Charles e Camilla, os próprios.

No entanto, desde que eles anunciaram seu casamento, só o que ouvi foram piadas cretinas sobre a falta de gosto do príncipe. Como ele tem coragem de se casar com um tribufu, um canhão, uma baranga? - pra citar apenas alguns dos delicados adjetivos com que Camilla foi presenteada pela imprensa e pelas conversas de bar. Por outro lado, não ouvi nenhuma mulher se perguntar: como é que Camilla foi se interessar por aquele songamonga?

Canhões e songamongas não enfeitam capas de revista nem fazem revelações picantes para a TV, pois a vida deles é maçante e o que interessa hoje é beleza, sexo e dinheiro. O amor virou a coisa mais antiquadra do mundo. Paixão, vá lá, ainda mantém um certo status porque promovem mudanças, porque excita e enlouquece, porque é antagônica, esquizofrênica, deslumbrante, mas amor? E ainda por cima, amor de uma vida inteira? Eca, "AMOR RETÍLINEO, PACÍFICO, SEM SURPRESAS, DURADOURO DEMAIS, E PORTANTO TEDIOSO PRA QUEM ESTÁ DE FORA. E É PRA QUEM ESTÁ DE FORA QUE A MAIORIA DAS PESSOAS JOGA".

Eles se casaram, os dois feiosos numa cerimônia very britishe isso é notícia porque trata-se de um importante membro da monarquia inglesa, viúvo, de um dos maiores ícones do século XX, mas que teve o gosto de insistir num relacionamento com uma mulher feia e por um motivo mais que aborrecido: porque a ama.

Realmente, sentimento só atrapalha.

Martha Medeiros.

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