02 março 2011

Inversão de valores

1. Você está dirigindo por uma rua e, logo a sua frente, um carro para, no meio da rua, para pedir informação ou para cumprimentar alguém, sem se importar que está travando a rua. Você pisca o farol ou dá uma buzinada e o motorista do outro carro começa a te xingar com uma lista de palavrões que nem a Dercy Gonçalves conheceria.


2. Você vive um relacionamento e, apesar de fazer o seu melhor, a outra pessoa te trata de uma maneira rude, por você não ter suprido as expectativas que ela própria criou.


3. Você é orientado pelo seu superior a fazer o seu trabalho de determinada forma e a não mudar a forma de execução em hipótese alguma. Entretanto, um cliente quer que seja feito de um outro jeito e, pelo fato de você não fazer, ele te ofende de uma maneira humilhante.


Sabe o que esses três exemplos têm em comum?


Você “está errado” por estar certo. É, isso mesmo. Parece loucura, mas você “está errado”, por ter agido corretamente. Vivemos um momento de uma completa inversão de valores. Onde você “tem” que agir errado, em virtude do erro do outro. Caso contrário, você é o chato, o errado, o inflexível. Numa cultura onde honestidade é sinônimo de ingenuidade, onde lisura é sinônimo de utopia e onde ter caráter é um valor desejável, não uma condição básica de existência, é muito mais comum você escutar um “deixa de ser bobo…” do que um “parabéns pela sua integridade” (por mais que parabenizar alguém por ser íntegro soe como absurdo pra mim!). Mas esse é, sem dúvida, o maior sinal de reprovação de uma conduta honesta.


Se você ainda não está convencido, pense em quantas vezes você ou alguém que você conhece foi taxado de ingênuo por ter agido certo… Não, a questão aqui não é entrar no mérito do que é certo ou errado, porque o que é certo pra um pode ser errado pro outro e todos nós sabemos disso.


A questão é que é muito triste viver inserido numa cultura e numa sociedade em que o ‘espertão’ seja mais frequentemente encontrado do que o digno. E onde ser digno seja um comportamento ‘diminuído’, presente em todos os discursos, mas pouco visto nas ações comuns do dia-a-dia.

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