02 novembro 2011

AMORES DESCARTÁVEIS

Partes interessantes do belo texto do jornalista, autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão Walcyr Carrasco.


Amores descartáveis


Já não sei o que fazer. Quando encontro alguém que não vejo há algum tempo, pergunto como vai. Depois, sobre a mulher ou o marido. Com frequência cada vez maior, surge o constrangimento.
— Ah, a gente se separou.
Para piorar, com frequência o novo amor está ao lado, os olhos lançando dardos. Nenhum livro de etiqueta ensina como agir diante das rápidas relações amorosas de hoje em dia. Impossível saber se as pessoas estão juntas, separadas ou numa fase dúbia, em que o marido costuma dizer que separou e a mulher que continua casada. Céus! Como parecer educado com tanta confusão? Pior. Boa parte das vezes, é impossível identificar a real situação. Se uma mulher diz que está “casada”, pode estar simplesmente comemorando o fato de ter saído com o mesmo sujeito dois fins de semana consecutivos. Se um homem conta que está namorando, pode significar que já juntou as escovas de dentes. (Atualmente, as escovas de dentes dão mais segurança que qualquer compromisso diante do juiz. Enquanto estiverem lado a lado na pia, é uma certeza de que a união continua firme.) A maioria das uniões é tão rápida quanto um resfriado. E os recém-separados partem para outra tão rápidos quanto atletas olímpicos.

O amor tornou-se um produto descartável. Até o significado da palavra foi diluído. Quem vive uma relação eventual, muitas vezes diz que “fez amor”. Como assim? “Fazer amor” não é algo muito mais intenso e profundo? Um dos sociólogos mais respeitados da atualidade, o polonês Zygmunt Bauman escreveu o livro Amor líquido, que fala sobre a fragilidade dos laços humanos na atualidade. “A definição romântica do amor como “até que a morte nos separe” está decididamente “fora de moda”, diz Bauman. “Uma cultura consumista como a nossa favorece o produto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados.” Construir uma relação exige esforço. Nossos avós viviam altos e baixos. Mas o casamento tinha um real sentido de parentesco, e os cônjuges lutavam para superar os maus momentos. Hoje, um compromisso se tornou até uma limitação, pois sempre pode haver uma oportunidade melhor no horizonte. E no primeiro espinho já se pensa na próxima relação. No Facebook, circula uma ficha para quem busca um novo relacionamento. Eis os dados pedidos:
Tem uma relação com: ________ Que trai com: ________ Continua apaixonado por: ________ Mas pensa em: ________ Dorme com: ________ Sai com: ________ Dá em cima de: ________ ; ________ ; ________ ; ________ ; ________ ________ ; ________ ; ________ ; ________; ________ ; ________ ; Seu amor platônico é: ________ Na sua vida voltaria a dormir com: ________ Sai com a(o) ex do(a): ______________ No dia em que bebeu demais acordou com: ______________
É perfeita para os amores efervescentes! As pessoas preferem relações de bolso, assim chamadas porque a pessoa pode lançar mão delas quando precisa. É baseada na simples disponibilidade dos parceiros e numa certa “química” de ambas as partes. Encontrar um amor é muito mais perigoso: implica risco, pois não há garantias de felicidade. A recompensa, porém, é um vínculo intenso e duradouro.

Vinicius de Moraes toca no tema, em em seu “Soneto da fidelidade”: Eu possa me dizer do amor (que tive): / Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure. Pois é. Parece que a eternidade preconizada pelo poeta anda muito rápida. E, cada vez mais, as pessoas reclamam da solidão.

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